9 de ago de 2011

Ela ficava na ponta dos pés

com seus tênis que mais pareciam sapatilhas, e mordia o lábio, tentando enxergar entre a multidão se aparecia algum sinal do seu ônibus.Tirou o pirulito da boca, baixando-o, o braço como sempre cheio de pulseireas tintilando, e assim sua imagem era quase infantil.Roeu o polegar. Droga, ela já estava esperando um tempão. Saía do colégio depois de um dia todo de aula e ainda tinha que ficar séculos esperando por um ônibus que parecia que nunca iria chegar. E ninguem ia se oferecer para levar a mochila dela, e ela nem poderia se perder na sua música, porque seu iPod estava descarregado. Um ônibus que levaria praticamente 40 minutos para deixá-la em casa, carregado de gente suarenta e trabalhadores de sonhos já destruídos.
Ela colocou o pirulito de novo na boca. Ouviu uma música vindo ao longe. Vinha de um carro. Ela o ouviu se aproximando, sem tirar os olhos da direção em que seu ônibus viria.  O carro baixou o vidro, de onde ela ouviu um 'psiu' . Hahaha, essa música lhe trazia ótimas lembranças, e ela se esforçou para não rir. Apesar de estar mal-humorada era sua música favorita, apesar de ser meio inadequada. Não queria, no entanto, que o cara de dentro do carro pensasse que ela estava realmente considerando pegar uma carona com ele. Ela poderia estar louca por uma carona, mas não ia entrar no carro de um tarado qualquer.
-Se você prefere pegar ônibus, eu vou embora
-Mas que merd...- e colocou os olhos nele.- Aaaaaah!,-ela gritou, mais feliz do que nunca. Tirou o pirulito da boca para falar direito- não tinha visto que era você! -e colocou a mão para abrir a porta do carro, ao mesmo tempo que estendia a cabeça para trás, rindo, deliciada. -Sério, eu te amo pra porra !- ela gritou um pouco alto demais, de modo que as pessoas de meia idade se inquietaram em ver uma garota dessas falando um palavrão tão assim abertamente. Claro que aqueles adultos trabalhadores cansados não entenderiam jovens de hoje, tão barulhentos, infames, livres. Não entendiam a dimensão de um milagre que acontecia naquela carona para uma jovem que estava, até aquele minuto, sem esperanças. Ela rapidamente abriu a porta e escorregou para dentro, e recolocou o pirulito na boca, fechando a porta habilmente. O rapaz segurou o cabinho do pirulito dela. Ela abriu a boca, deixando que ele o pegasse, e ele o colocou em sua própria boca, roubando-o dela. Levantou o vidro escuro e vendo que o sinal tinha aberto, acelerou.
É, acho que ele não era um tarado qualquer.

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